O que é Metanoia? Uma abordagem sobre conversão e seus conceitos.

Introdução

Neste artigo vamos falar um pouco sobre o conceito de conversão adotado no novo testamento e entender o significado da palavra Metanóia.
Segundo uma abordagem sociológica, a conversão é definida como uma transferência de alguém de uma comunidade para outra. Uma das características dos convertidos é a predisposição de reinterpretar seu passado através da perspectiva de sua nova comunidade.

Jesus inicia sua pregação dando-nos um alerta: “o Reino dos Céus está próximo: convertei-vos”. Ele nos abre um horizonte de um novo Reino que se apresenta, porém para se tornar participante ativo desse Reino ele deixa claro que será preciso uma mudança de atitudes e valores e que isso exigiria uma conversão (Metanóia).

Jesus trazia uma mensagem desafiadora ao povo para que esse tivesse uma conversão na qual seus atos estivessem em constante mudança. Essa mudança deveria começar pelo interior, não apenas nos ritos que Israel estava acostumado a cumprir seguindo a lei mosaica, antes era preciso compreender que o reino de Deus tem a ver com mudança, transformação e um novo formato de vida. Então, era preciso mudar a maneira que se pensava (metanóia), pois a forma desse Reino pensar é totalmente diferente da forma que o mundo/sistema pensa, por isso, é totalmente incompatível se mover nesse novo reino anunciado por Cristo com a mentalidade formatada de acordo com a cultura anterior.

Não podemos deixar de citar João Batista que começou pregando um arrependimento, visto a iminência da manifestação do Messias e seu Reino, ele exortava o povo a uma mudança radical de atitude e mentalidade para que fossem acolhidos por esse Reino.

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Metanóia (Gr. μετανοία)“mudança de opinião”, “arrependimento”, “conversão”
Meta “além”,Nous(Intelecto, pensamento), assim metanóia é equivalente a uma mudança de pensamento/opinião.

A mudança de opinião inclui o reconhecimento de que a opinião anterior estava equivocada. Uma pessoa/sociedade é moldada pelos aspectos da cultura onde ela está inserida, tais como: valores, normas, crenças, costumes, hábitos, educação, artes, entre outros. Paulo escreve aos Romanos no Cap12 vers 2. E não sede conformados (não se amolde) com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento (mente), para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.

Paulo nos confronta a não sermos moldados com a cultura desse mundo, mas sim transformados pela renovação de nossa mente. A conversão proposta por Cristo é de retirar toda a influência (molde) do reino das trevas da mente, enxergar uma nova perspectiva e através do Espirito Santo sermos direcionados e movidos por uma nova cultura. Quando estamos em Cristo nova criatura somos e tudo se faz novo, aquilo que está a minha volta não é alterado por eu estar em Cristo, mas a minha mente totalmente renovada e submetida a Cristo me faz enxergar novas possibilidades mesmo que ainda dentro da mesma realidade.

Devemos analisar e compreender que o conceito de conversão que o Novo Testamento emprega, se utilizando da palavra Metanóia, demonstra uma maior preocupação em evidenciar uma mudança intelectual/pensamento, que faz a pessoa aprender a pensar agora a partir de sua fé e não mais segundo a cultura que ela estava inserida.

A conversão daquele que é discípulo de Jesus deve resumir-se a uma entrega a Deus de todo o coração, alma, mente, sentimentos e vontades. Entregar-se totalmente significa conversão plena a Deus. O novo nascimento não está ligado a uma ação física/natural, mas antes a uma mudança de pensamento acerca das coisas do reino, é como um novo entendimento sobre aquilo que já conhecemos. Observando o que Jesus falou para Nicodemos, que era necessário nascer de novo para ver o reino de Deus, vemos que ele apesar de ser um mestre em Israel, um Fariseu respeitado, não compreende a colocação de Jesus e o questiona como poderia tornar ao ventre de sua mãe e nascer de novo.
Nicodemos não entende que muito além de qualquer mudança exterior, tal como nascer novamente, sua mente deveria passar por um processo total de conversão (metanóia), uma mudança de opinião acerca de tudo o que ele já havia aprendido, pois quando renovamos a nossa mente criamos um filtro através do qual, a partir daquele momento, tudo o que pensamos ou produzimos passa por ele. Somente assim ele poderia compreender e ver o reino de Deus.

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Paulo e a metanóia

De todos os conceitos que Paulo usa para falar de conversão, nenhum é mais inspirador que o da “Nova Criação” em que ele faz menção a reconciliação quase como essência da conversão.

2 Coríntios 5:17-28 Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.
E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação;

Na concepção de Paulo a conversão era como um novo nascimento, no qual o velho homem seria deixado completamente para trás e um novo homem nasceria com responsabilidades e serviços ao Reino de Cristo.

Paulo considera a transformação em sua vida a parte mais importante de sua experiência e entendia que ser um exemplo da graça transformadora de cristo era parte integrante da sua missão apostólica.

William James definiu a conversão de Paulo como “processo pelo qual quem luta com um sentimento de culpa e inferioridade torna-se alguém consciente de estar correto e integrado em consequência de ter conseguido compreender melhor as realidades religiosas”.

A experiência de Paulo na estrada de Damasco é um grande exemplo de conversão. Um Judeu farisaico sente profunda mudança quando lhe é revelado que pode ser justificado pela fé em Jesus e não mais nas leis, Antes era um perseguidor, agora com uma nova mente ele é um anunciador.

Quando Paulo teve sua experiência de conversão (metanóia), ele reorientou tão radicalmente sua vida e valores religiosos que acabou por criar um novo padrão de religião, longe da lei que antes servia e totalmente próximo da graça de Cristo. Ele mudou suas opiniões, teve a sua mente formatada pelos princípios do Reino o qual ele aceitou, compreendeu a essência do novo nascimento, entendeu que ele precisava se despir de toda cultura que ele havia adquirido durante toda a sua vida. Despiu-se de todo velho homem e vestiu-se da nova criatura, nova cultura, totalmente baseada nos padrões de Cristo e suas palavra.

Conclusão

A pregação de Jesus chamando ao arrependimento nos leva a refletir sobre novos valores e opiniões para podermos fazer parte de seu Reino.

A conversão não é apenas uma mudança externa de mudar a direção do caminho ou de voltar-se para Deus, antes é uma mudança interior que perpassa toda a pessoa e afeta as dimensões da vida.  A conversão nunca é um fim em si mesmo, mas apenas um começo que resulta em mudança exterior e de comportamento.

A ideia básica de conversão é mudança, voltar-se do pecado, da morte e das trevas para a graça; a pessoa vai mudando suas atitudes e seu comportamento à medida que modifica seus conceitos e reavalia seus valores. Conversão faz parte de uma transformação que inclui “esquecer o caminho percorrido” e “ansiar pelo que está à frente” onde a pessoa repensa completamente o passado a luz dos compromissos presentes.

O reino de Deus é apenas um sinal daquilo que está por vir, quando passamos pelo processo de conversão/metanóia, passamos a manifestar aqui e agora uma cultura do céu, aquilo que está reservado para o futuro, é manifestado através de nós aqui.

Bibliografia

Harris, R. Laird; Archer, Gleason L.; Waltke, Bruce K. – Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento; 1ª edição; São Paulo; Editora Vida Nova; 1998.

Harris, R. Laird; Archer, Gleason L.; Waltke, Bruce K. – Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento; 1ª edição; São Paulo; Editora Vida Nova; 1998.

Gerald F. Hawthorne; Ralph P. Martin;  Daniel G. Reid. – Dicionário de Paulo e suas cartas; 2ª edição 2008, Editora Paulus

Witherup. R; Conversão no novo testamento; Loyola, São paulo, 1994

BibleWorks; versão 8